Por que João O Batista não pregou em Jerusalém, e sim nos arredores, no Deserto?
Tudo o que sabemos sobre João Batista é contado pelos evangelhos. É o precursor de Cristo, aquele que liga a Antiga Aliança com a Nova, o último dos profetas antigo-testamentários, que anuncia a chegada do Messias: “eis o Cordeiro de Deus...” (João 1,29), a Boa Nova definitiva, esperança de cada profeta do Antigo Testamento.
Através dos evangelhos sabemos que ele era filho de Zacarias e Isabel, que o ganharam quando já eram anciãos. Isso testemunha o aspecto extraordinário de
João. Lucas 1.
Marcos 1,4-6 diz: João Batista esteve no deserto proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados. E iam até ele toda a região da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando seus pecados. João se vestia de pelos de camelo e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.
Essas informações servem para tratar da questão inerente ao nazireato. Nazireu era uma pessoa consagrada a Deus, com a promessa de seguir alguns preceitos de vida. Números 6 nos registra o voto de nazireato. Assim é dito: abster-se-á de vinho e de bebidas fermentadas, não beberá vinagre de vinho ou de bebidas fermentadas, nem tomará suco algum de uvas, e não comerá uvas frescas ou secas. (...) Durante o tempo de seu nazireato não rapará a cabeça com navalha; até que se cumpra o tempo pelo qual se consagrou a Jeová será consagrado e deixará crescer livremente a sua cabeleira. As informações que temos, bastam para dizer que João fez esse voto. Além do mais, o texto de Números diz que se trata de um voto temporário. De fato há um ritual, descrito nos versículos 13 seguintes, para o dia em que findar o voto (veja o voto de Paulo em Atos 18:18). Comumente se afirma que Sansão era Nazireu.
Com certeza João Batista foi circuncidado. Além de ser um rito habitual entre os judeus, a informação é transmitida também por Lucas 1,59: No oitavo dia, foram circuncidar o menino....
O deserto, em Israel, não condiz com a nossa visão costumeira de deserto. Ela é normalmente ligada com o Saara, os desertos africanos ou aqueles extremos. Israel é uma terra pequena e, por exemplo, a 5 quilômetros de Jerusalém, logo na periferia, começa o deserto. Ou seja, o deserto fica muito próximo da vida cotidiana. Por isso, mesmo vivendo no deserto, João podia ser escutado pelas pessoas, que, curiosas, vinham até ele.
Quanta a sua idade sabe-se, graças a Lucas, que ele nasceu quando Maria estava grávida de Jesus. O mesmo evangelista (3,19) conta que ele foi preso por Herodes
Antipas, por causa de Herodíades, mulher do seu irmão. João condenou a Herodes, que convivia com a cunhada. Para satisfazer o pedido da filha da cunhada, Salomé, mandou matar a João. Isso aconteceu durante o ministério de Jesus, que iniciou quando tinha mais ou menos 30 anos. Portanto João Batista morreu com cerca de
30 anos.
Jesus foi batizado por João no Rio Jordão (Mateus 3,13 e seguintes). Portanto, eles se conheceram.
Se João O Batista era de uma linhagem sacerdotal, por que precisou fazer o Voto de Nazireu?
Certamente este voto era uma questão de consagração pessoal não obrigatória para ninguém, muito menos para quem pertencia à casta sacerdotal pelo que herdavam o sacerdócio mesmo sem fazer-se o voto.
Aparentemente ele teve uma consciência tão constrangedora a respeito da importância de seu papel no tempo em que estaria por cumprir-se a chegada do Messias, que decidiu fazer o voto para aumentar a sua adequação para tão sublime momento, e missão tão transcendental de transição do Reino de Israel para o Reino de Deus definitivo.
Tal foi a sua perspicaz consciência que decidiu viver seu nazireato no deserto, nos arredores de Jerusalém, como uma profecia de que Deus não comunga com o Sistema Religioso Jerusalêmico obsoleto e morto. Comer do jeito que comia; vestir-se da maneira como o fazia, e viver no Deserto pregando à voz alta, implicava uma rebeldia contra tal sistema.
Jesus não teve um Precursor condizente com a chegada de um grande monarca humano, senão uma voz no deserto que simultaneamente se opunha à opulência e a rigidez do sistema levítico em vigor e anunciava a aceitação no Reino, de quantos se arrependessem de seus pecados, independentemente se fossem judeus, ou gentis.
O Dono e Senhor da igreja não quer para ela o Sistema litúrgico levítico, nem qualquer outro sistema morto e vão de culto a Deus, e tampouco comunga com a “religiosidade popular” que domina as cidades do Mundo. Seu propósito, desde que a criou, foi ter para Ele uma comunidade de renascidos que adorassem a Deus em espírito e verdade. Por isso mesmo o seu
Precursor dá fim a um Sistema afrontando-o, e desmistifica a adoração e o serviço a Deus, vivendo no Deserto.
A curta vida de João O Batista foi muito mais que a presença no Mundo de um Porta-voz dos céus; também foi a do maior revolucionário que trouxe a subversão a todo sistema religioso onde Deus não é mais que esperado de acordo com as idéias humanas e nos parâmetros particulares da religião, e um ser etéreo que se desentende do Universo, limitado a liturgias, ritos e imagens.
Nele vemos uma das maiores mensagens evangélicas bíblicas, onde a simplicidade de Cristo se manifestou e a genuinidade e a especificidade do Evangelho se resumem em: Mude e esqueça-se de si mesmo enquanto anuncia o Reino, e vive o perdão de Deus.
Hoje temos “Patriarcas” denominacionais que são honrados e venerados pelos seus sucessores, e embora a própria Bíblia mande obedecer às instituições humanas, e a honrar a quem se deva, também ensina que não é nem a idade cronológica nem a “trajetória” que nos faz adequados para cumprir um propósito divino transcendental num tempo determinado por
Deus na história de Sua igreja.
Sim é o nosso alinhamento com os propósitos eternos de Deus e o desenho de igreja que
Cristo esboçou que nos faz heróis da fé, dignos de estarmos qualificados para a nova e última galeria da fé dos vencedores, e como João O Batista, para cumprirmos com tal propósito, bastam tal vez três anos e meio como em Jesus ou algo semelhante em Seu Precursor.
Minha percepção está em que o radicalismo de João aponta a um serviço sacerdotal sem opulência, sem ritos, sem liturgias complicadas, sem dever nos enredar nos labirintos da tradição e a herança ministerial; nos dias de hoje, a cumplicidade com “donos de igreja”, senão envolver-nos pura e exclusivamente com a simplicidade de Cristo para anunciar e viver um reino onde não se manifesta pela imponência de seu rei e a ostentação ritualística a fim de ter de veras o poder de reconciliação que tanto faz falta entre pais e filhos, e até para com os rebeldes.
O mundo de hoje, altamente relativista e cronicamente rebelde e obstinado no mal, necessita de mais “João O Batista” que, mesmo sabendo-se peça fundamental na transição histórica da Humanidade mais transcendente, e último dos profetas predizentes da chegada do Rei que iria a salvar o seu povo, adota um estilo de serviço desmistificado de religião e de vida despojada de injustas posições como alcançadas pelos homens que conseguem “pagar o preço”, doutrina esta completamente antirreino de Deus.
Quem não ajunta com Jesus, espalha. Se a bombástica vai ornamentar o “meu ministério”, a “minha igreja” vaidosamente, pode estar acontecendo que não esteja dando bem-vinda ao Rei nem o introduzindo entre os homens irreconciliados, e nunca coopere com o Rei na restauração das famílias prometidas a Abraão para Deus, e com certeza, ainda que o tal “ministro” seja salvo, as suas obras se perderão...
Nossa apetência não deve estar focada em Jerusalém senão no Deserto. E a nossa mensagem não deveria ressaltar o artista, senão a obra artística, e ainda quando o Mundo apenas ouça a nossa voz, e a nossa aparência não signifique nada, as famílias deveriam ser tocadas para se arrepender e mudar de vidas.
O nosso Deserto não precisa implicar “pagar o preço”. Pode ser uma vida muito próxima da vida comum que a maioria vive nas cidades, até mesmo os religiosos dos grandes centros idolátricos nelas, porém, desmistificado e despojado do desnecessário para a vida e o ministério.
A nossa consagração, entretanto, deve ser duplicada e muito acima da do povo, até mesmo dos mais felizardos herdeiros de ministérios exitosos no âmbito. Se João era casado, pelo menos a Bíblia não o menciona. Nossa condição civil de casados, com famílias, potentados e com posses abundantes, nada disto devia aparecer no nosso currículo para o ministério, senão apenas a nossa disposição a não aparecer e não comungar com o establishment religioso. E os possuidores de ministérios não deveriam procurar se perpetuarem neles. Devia bastar-lhes um tempo suficiente para impactar a sociedade que o circunda com a mensagem do arrependimento e a reconciliação de pessoas e famílias entre si, e com Deus.
Comentarios
Publicar un comentario