A tragédia dos meninos espirituais, não nega a sua relação com Deus, nem invalida a realidade do novo nascimento e o poder de Deus; no entanto, sim convalida a vaidade e o orgulho do ego humano caído e pertinaz.
O Novo Testamento nos informa que antes não conhecíamos a Deus, e que éramos sem pátria, sem esperança e sem Deus. A nossa conversão de pessoas alheias aos pactos de Deus para com os homens, a uma filiação divina de graça e no amor, nos tornou filhos de Deus. Isto é inegável. Porém, uma coisa é ser filho gerado, e outra muito diferente o ser filho maduro.
O filho gerado pode ser um feto, embrião ou simplesmente um menino indefeso que late a vida e que, no entanto, morre a qualquer instante se alguém não o salva por meio da alimentação.
As pessoas sem Deus carecem da realidade de Deus vivendo nelas e a graça divina ajudando-as em todo momento. Ao experimentarmos o novo nascimento, nascemos para a realidade do Pai celestial, do amor e da paz, porque nos reconciliamos e somos adotados em Cristo, quem nos introduz à vida eterna, incorruptível e auto-suficiente.
Entretanto, existem grandes diferenças entre a consciência de um feto da de um embrião e de um recém nascido. Da concepção humana vem um feto, e esse feto crescido se torna embrião e já completado o tempo de gestação, nasce. Finalmente, já nascido, deve se alimentar para poder se manter vivo e crescer sadio.
A Palavra de Deus é a semente. Lc. 8. 11. Essa semente gera um feto: a consciência de uma nova natureza. Logo essa consciência amadurece e não suportando mais o hábitat da velha natureza, geme por se libertar, e ai nasce à luz de um novo mundo: o mundo da vida liberada, uma nova vida.
A maioria da cristandade vê a conversão como uma mudança e transformação metabólica mental, e deixou de perceber que tudo se concentra em uma vida superior à qual alimentar com mais Palavra de Deus para que continue a crescer até a maturidade.
O enganador Satanás que enganou a Eva, entrou na genética humana para seduzir-nos com o “conhecimento”, apartando-nos da simplicidade da vida (2ª Cor. 11. 2,3). O veneno da Antiga Serpente conseguiu capturar a alma humana e através dela perpetuar o engano do conhecimento do bem e do mal como caminho de vida, quando o verdadeiro caminho é a vida divina. O seu método foi a meia verdade, contaminando a alma com a falsidade e o auto-engano.
Houve um instante em que o homem morreu espiritualmente: o momento quando ouvindo à Serpente seguiu o seu conselho, e a partir daí, o momento dessa morte em cada ser humano é o do ‘esquizo’, ou seja, o nascimento. Em outras palavras, nascemos mortos espiritualmente!
Ao virmos ao Senhor, a Salvação, não o fazemos por vontade própria (que ficou subjugada a Satanás na Queda), senão porque Deus nos atrai a Ele; nem o fazemos pela consciência interior de Deus (recebida na criação à Sua imagem, e que permaneceu no espírito “separado” de Deus pelo Queda).
A cada nova pessoa que nasce, Satanás já tinha entrado no momento do esquizo, pelo facilitamento que lhe outorgara a Queda Humana enquanto feto e embrião. Mesmo isto configurando a tragédia mais deplorável da Queda Humana, acima dessa possibilidade sempre estará Deus, a Vida, que pela Sua Presciência marcará os filhos dos homens como Herança Sua, e pelo Ato sacrifical de Cristo o Redimirá completamente.
As pessoas que temos a graça de encontrar a Salvação e ao informar-nos desse desígnio divino, nos maravilhamos e começamos a viver sobressaltado pela nobreza e singularidade da experiência do Novo Nascimento espiritual. Uma vez nascidos de novo, a Vida Divina em nosso espírito impacta à nossa alma caída, a qual Satanás conseguiu dominar, e se não nos cuidamos na alimentação adequada, ou seja, continuando na vida e não nos transferindo ao conhecimento, morremos, e ficaremos inválidos espiritualmente, mesmo sendo filhos de Deus.
Veja a antonomásia entre “abortivo” e “conhecedor” que traz o título desta mensagem. Veja a diferença entre o primeiro conceito e o segundo. O primeiro se relaciona com vida; o segundo, com conhecimento. O primeiro tem a ver com a vida, o segundo, com o abstrato que é o conhecimento mental. O primeiro, parte do espírito humano morto, que se torna vida pela vivificação do Espírito Santo, enquanto que o segundo nasce da alma humana caída e rebelada contra Deus, pelo veneno da Antiga Serpente.
No primeiro, o fato de ser concebido ou gerado, e de nascer de novo, vem da Árvore da Vida. No segundo, a realidade de termos uma alma caída e rebelada contra a vida, independente e extraviada, procede da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
A Vida gera conhecimento, porém, não o conhecimento mesclado entre o bem e o mal como o que procede da alma enganada por Satanás. Trata-se de um conhecimento superior, o que se alinha com o espírito divino, Deus.
Quando Jesus realizou na Terra o Seu Ministério Terreno, ensinou de diversas formas sobre a vida superior, distanciando-se do mero conhecimento intelectual dos homens. Não apenas as pessoas de seu tempo não lhe compreenderam cabalmente, como também a través dos séculos o Cristianismo distorceu as suas manifestações e declarações.
Contudo, não podemos considerar isto um fracasso, posto que Ele próprio explicasse em João seis que para “conhecer” Deus, a Vida, as pessoas precisam comer e beber do Pão da Vida e da Água da Vida identificados como sendo Ele, única e exclusivamente. João 17.3.
Logo, o Novo Testamento nos completa a realidade desse suprir divino disponível para os recém nascidos espiritualmente, pela apropriação feita pelos apóstolos Paulo, Pedro e João nas Escrituras Sagradas. Certamente, todos os demais escritores novo-testamentários revelam a mesma apropriação e manifestação concreta dessa vida divina neles; porém, os citados são os principais referentes desta benção.
As epístolas paulinas transpiram vida, não conhecimento. As de Pedro revelam sujeição ao ministério de Paulo e do Senhor Jesus, e uma aguda percepção da salvação como caminho de vida; e João descreve o amor e a vida, a luz e a verdade como componentes essenciais da Vida Eterna em Deus e em cada nascido de novo.
Há um mistério subjacente a toda esta descrição bíblica e revelacional: o Plano Eterno de Deus. Este plano visa Deus entrar em muitos seres humanos e crescer dentro deles, transformando-os até serem constituídos membros de Seu Corpo pela eternidade. Na eternidade futura os salvos estarão em Deus eternamente, quem será o único que habitará o Universo, os novos céus e a nova terra.
No Plano de Satanás, Ele entra nas pessoas e vive na alma delas, e se manifesta através do conhecimento da mente, dos sentimentos e da vontade rebelados contra Deus. Se nascermos de novo, o Espírito de Vida em nosso espírito vai expulsando a morte de nossa alma pelo processo da alimentação da Palavra de Vida de Deus. Nascer de novo é sublime, celestial, divino; nos muda de abortivos para pessoas humanas na Terra com a natureza de Deus; mas sem alimentar-nos de Cristo, ficamos inválidos e não podemos conhecer a Deus na sua inescrutável riqueza.
O engano de Satanás é tão sutil, que havendo nós nascido pelo Espírito, logo nos desviamos para a carne pelo “conhecimento” de Deus e das “coisas de Deus”. Gál. 3. 1-5. No mundo ele nos enganava por meio de filosofias e ocas sutilezas, segundo as tradições dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. Col. 2. 8. Mas hoje estando em Cristo, a Vida, o seu engano não pode menos que disfarçar de “conhecimento de Deus” para ver se nos estorva com “pesos” e nos enreda com “pecados” como o pecado voluntário de 10. 26 de hebreus pelo qual os judeus foram impedidos de entrar para a Graça. Hb. 12. 2.
Satanás usa as doutrinas corretas dos filhos de Deus, com as quais eles se entretêm e até chegam a adorá-las, para enredá-los na vida com o conhecimento, desviando-os do Caminho da Vida.
A Vida é como rios. João 7. 37-39. Não podemos dar-lhe um manual de regras e conhecimentos para ensiná-los a correr. Eles correm naturalmente pelo seu próprio leito, sem se importar de nada. As sujeiras de seus limites fogem deles automaticamente. No Éden, eles também possuíam riquezas inescrutáveis.
O engano de Satanás que ainda fica como rasto do acontecido no Éden, em nossa alma, mesmo salvos nos desvia para o fútil entendimento de que quanto mais conhecemos de Deus, mais perto dele estaremos, quando a verdade é absolutamente outra: quanto mais comemos de Cristo, mais vida divina haverá em nós, a despeito do mero conhecimento.
É neste sentido que o Apóstolo Paulo afirma: “o conhecimento envaidece”.
Na vida humana existem três maneiras de visão, ou de podermos ver: com o órgão físico, com a mente e com o espírito. Aqui nos interessa descrever as duas últimas possibilidades:
A visão da mente se desenvolve ao longo da vida toda; não precisamos ser cristãos para adquiri-la. Ela vem pelo conhecimento empírico e acadêmico, e nos cristãos, o conhecimento religioso ou sacro. Sem embargo, esse é um conhecimento meramente psíquico e não espiritual. Não gera vida nem a sustenta.
A visão espiritual vem do espírito humano, gerada pela vida divina em nosso espírito. Porém, essa vida deve constantemente se alimentar de Deus para que ela possa crescer. Ficar no estado de recém nascido, é a pior desgraça humana, pois, não há pessoa tão complicada como o crente infantil, posto que os ímpios não conheçam Deus, e os crentes estagnados no mero conhecimento inicial de Deus se vangloriam de seu conhecimento intelectual das “coisas de Deus”.
Segundo Cristo, a visão espiritual começa por ver-nos pecadores. João 9. 35-41.
Hoje abundam crentes que batem o pé afirmando estarem na verdade, defenderem a verdade e só a verdade, terem a doutrina correta, verem objetivamente os frutos da vida dos outros, e conhecerem o que é verdadeiro, distinguindo-o do falso.
Tudo isto configura infantilidade, e esta, denuncia que vivemos na alma caída e não no espírito regenerado. Quer dizer, equivocamos o caminho: havendo começado pelo Espírito, estamos seguindo e acabando pela carne, o conhecimento meramente intelectual, e não na base da vida do Espírito que destapa os nossos olhos espirituais e nos faz ver primeiramente a nós mesmos, e de maneira constante a Cristo.
Só na contemplação dele é que nos tornamos homens e mulheres com visão de Deus para guiar a outros. 1ª João 1. 1-4. “Contemplação” é ficar em silencio e não falar. A muita ignorância enche a boca de falação e tampa os ouvidos dos que ouvem a Verdade de Deus. E só neste conhecimento, o quem vem pela contemplação de Deus é que as pessoas completam o gozo de sua salvação.
Quanto mais conheçamos as Escrituras, não na forma da letra morta, senão como espírito e vida (Jo 6. 63) e quanto mais desfrutamos dela como sendo a pessoa do próprio Senhor Jesus, e a mesclamos com o Espírito, mais vida divina temos, e deixaremos de ser infantis, crentes problemáticos, para nos tornar canais dos poderosos rios de Deus abençoando a muitos. E naturalmente, como Jesus se revela nas Escrituras, não podemos manuseá-las levianamente senão usando as devidas regras que correspondem a um texto, neste caso, um texto divino, que é também vida e espírito de Deus.
Todo crente que permanece infantil se envaidece de haver sido salvo e transformado de um abortivo para um conhecedor das “coisas de Deus”, e quando é confrontado com a Verdade da Alimentação de Cristo para amadurecermos, reage com a falsa acusação de que “o conhecimento envaidece”, porque as suas obras são más e por isso eles não suportam a luz da verdade que primeiramente os leva a ter que admitir que são pecadores e para nada dignos da confiança de Deus, para logo despertar neles a fome e a sede do divino, e introduzi-los ao viver no Espírito tirando-os do viver na alma, quer dizer, a carne caída que se entretêm e gosta mais do conhecimento “de Deus” que do próprio Deus.
Assim hoje abundam “conhecedores de Deus” neófitos na fé que não sabem calar a boca, não sabem fazer silencio, não sabem ouvir e muito menos refletir, porque presumem “saber” e “conhecer” pelo simples fato do portentoso novo nascimento, que, no entanto, aconteceu para crescermos em Deus e não para ficarmos adorando esse estado de meninos em Deus.
Por tal infantilidade, eles não respeitam o apóstolo como aquele que possui a visão global da igreja e de Deus, ao pastor como quem conhece as ovelhas de Cristo, ao profeta como aquele que vê na particularidade da igreja local e das pessoas individualmente, e nem respeitam o evangelista que morre a cada dia para ver ovelhas perdidas sendo achadas, e o mestre que vive debruce na Palavra de Deus.
Eles não conseguem deglutir o que ouvem; remoem e vomitam enquanto eles também falam, corrigindo o ouvido, modificando, acrescentando, contendendo e filosofando, em vez de ouvir e voltar-se a Deus, a Vida, para que seja esta que julgue a validade das coisas que lêem e ouvem.
Vivem aprendendo sem aprender, pois, julgam tudo pelo que eles sabem ou conhecem, e não são capazes de se abrirem a uma nova luz espiritualmente conciencial.
Assim se consagram eles próprios guias cegos de cegos, e baseados na benção da salvação, e de certas experiências da graça e a misericórdia de Deus, presumem estarem autorizados a se constituírem ministros, sem saber manusear adequadamente a Bíblia de Deus e sem intimidade com Deus. De uma hora para outra pretendem que Deus os tenha iluminado e designado para guias de outros, desrespeitando Deus e a Sua carta ou manual, a Bíblia.
Tiago Apóstolo nos recomenda não nos constituir em mestres quando ainda não soubermos dominar a língua. 3.1,2. Acredito que na minha experiência de vida com Deus tenha passado 50 % da vida ouvindo, lendo, examinando e pesquisando, sem mover a minha língua para nada; 30 % esperando que os muitos mestres parassem de falar e me dessem a oportunidade para me introduzir, e 20 % ensinando o aprendido no processo dos 80 % de vida vivida no âmbito cristão evangélico. Não sou exemplo; só desejo passar a luz que Deus me deu na sua graça, e solicitar aos amados companheiros aos que chegue esta mensagem que, por favor, parem para ouvir, se deixem discipular, se debrucem nas Sagradas Escrituras e sacrifiquem tempo para desfrutar de Deus, e verão a grandeza de Deus preparada para cada um de nós, caso decidamos crescer e amadurecer, pois, tem certa porção, quantidade e qualidade da herança que Ele dará aos Seus filhos somente quando amadurecerem. Gál. 3. 23-4. 1-7.
Quanto a mim, posso testemunhar com certeza e na humildade de Deus que sou o que ouvi e vi, e não o que presume o homem carnal saber pela capitalização do esforço humano. Sou o que comi não alfafa nem enlatados manufaturados pelos mestres das religiões, senão a Palavra de Vida escrita e em pessoa, na comunhão contemplativa do Deus Tri-Uno.

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